03 janeiro 2010

O Contato

nenhuma realidade desperdiçada

a pedra - dura, sólida - faz doer a mão que lhe faz carinho
a mão reconhece a própria pele ao tocar na pedra
a pedra pede para ser tocada com a voz da sua imobilidade
a mão precisa da concretude da pedra para ouvir seus sentidos
a pedra desafia a pele com sua resistência sem juventude
a mão descama sua delicadeza na efemeridade do contato
a pedra não tem nascimento nem morte
a mão tem o movimento

26 março 2009

Depois

depois, bem depois deste universo
onde o cosmos já não alcança
haverá quem sabe a matéria
da matéria sem substância
e a alma já leve e seca
dos seres, dos elementos
no tempo onde não há mundo
no mundo onde não há tempo
verá que a vida era
não mais que a vida primeira
a pequena parte, o princípio
a menor de todas, início
de uma existência inteira

16 março 2009

A Bicicleta

a bicicleta
é toda geometria
de esferas, retas
triangular harmonia

a bicicleta
é sabedoria
de curvas, rotas
esperas, vias


põe rodas nas pernas de quem a guia
e noutro corpo completa
a simetria

06 fevereiro 2009

O Cavalo

o cavalo nasceu para ter dos campos
os infinitos
mas no circo ele circunda o picadeiro
e já entende o seu serviço

o tanto que o cavalo compreende
ter
um dever
é quanto sua natureza perde de si mesma
a noção

o cavalo ganha uma competição
e não vibra
carrega sua cruz
e não se queixa

deixa que tomem seu corpo e o conduzam
sem saber a direção

o cavalo compreende
ele já aprendeu que, livre,

não serve para ninguém

03 janeiro 2009

Tempo Perdido


perco tempo
e sei que perco
e vivo assim
perdendo tempo
de mim
e sei que o tempo
do que perco
vive em mim
perdendo tempo


04 fevereiro 2008

Um Caminho

o coração mais quente
sente mais frio

é mais forte a violência
para os delicados

esses, hão de redobrar sua delicadeza
e seus corações
cada vez mais quentes e mais quentes e mais quentes


hão de derreter a geleira
pedras e pedras enormes de gelo
derrentendo
e por aquele vão que abriram
por aquele caminho
por ali
altos e delicados

eles poderão passar

03 fevereiro 2008

O Mar Desta Viagem

navego sem sentido

sem propósito


o tempo espreme o tempo e é conciso


em tudo nada sobra

mas eu fico


eu fico sem procura, sem princípio

no entanto, eu sigo


o mar desta viagem é silêncio

22 outubro 2007

Sombra Nenhuma de Teu Corpo

encontro
numa sombra nenhuma de teu corpo
o quanto és vivo, agora morto

ironia, perder é descobrir o quanto havia

mas não me culpes
não são minhas essas leis
nem tuas

estamos presos a uma lógica
absurda de nós mesmos

agora o tempo, ao te saber,
é todo volta
resgate, retorno
triunfo
do irrecuperável

- da pausa interminável levo apenas
um pentagrama exilado de futuro
onde a próxima nota é sempre
a negação da música

tua morte é tua única cartada de eternidade

de agora em diante
viverás de negar tua existência
dia a dia, ano a ano

memória onde vens morar segue teu rastro e é o tempo
do tempo de te desfazer

até que não existas mais
até que um dia nem tenhas nascido

10 março 2007

Central

o ponto central do meu discurso é uma casa pegando fogo
e pegando fogo o incêndio

um pássaro de asa quebrada arrastando o corpo e, em queda livre,
voando

o ponto central do meu discurso é um silêncio profundo
acorde arrebentado da música se escutando

o ponto central é a cegueira se observando
o tempo ruindo
comigo passando


e tudo ficando em mim

se amontoando...

12 fevereiro 2007

O Luthier

ouço a música de madeira do luthier

sua escultura sonora
feita de vãos e cordas

músico sem partituras no pensamento
o luthier

seus acordes de curvas
as harmonias físicas

penso na música de arquiteturas do luthier
a construção de um templo
dentro do instrumento

casa do silêncio
seu métier

10 fevereiro 2007

Inverno

inverno
ilusão a tua
frio eu sinto é por dentro

não supões que o vento, apressado,
bate contra meu esquecimento?

não vês que é do centro
que a estação desenha o dia?

aqui, onde não alcanças,
está o calor que não aprendes

e o gelo

que nem imaginas

08 fevereiro 2007

Bravo!

que de ti possam dizer: foi bravo!
resignado em seu dever
de viver

e possam acrescentar: foi breve
a vida que te mereceu

possam lamentar
a impaciência do tempo
para curtir teu corpo
até perder a cor
até a alma
ficar transparente
ser o que não se vê
ser o que não existe

ser aquele que foi
simplesmente

um a mais
um a menos

resignado
em seu dever

de viver

Sede

não torna a água
já entornada

arrepende-se do rio que dela se enche
arrepende-se do oceano
o afluente

vira a sede do deserto
aberto no mar

06 fevereiro 2007

Olhos Teus

olhos teus em teus olhares passo
uma afortunada rebeldia dos lugares nas cores

e o tanto meu que resta
o tanto meu que é vício de ti reflete o dia

de dentro de teu olho que meu olho espia

Repara

repara de manhã como são leves
os teus infernos
e é lento no teu corpo o movimento, a pulsação

repara como muda o mundo dentro do teu tempo
e as mesmas juventudes ficam velhas
e suaves

repara que é a vida que te vive à tua revelia
e dia após o dia te descobre diferente

e sente como é breve a natureza que te apura
afina teus ouvidos, tira o pó dos teus olhares
e tu que nem reparas neste sol que te amanhece
não usas nem metade dos milagres que conheces

04 fevereiro 2007

O Destino

convences a Deus
mas não te podes perdoar

tua glória é alheia
tua recompensa, inútil

onde fostes te deixar
enquanto o caminho seguia
sem hesitar um futuro
sem dar ouvidos a nada?

onde foi que para ti
Deus se deu por satisfeito
e começou o teu calvário
bem íntimo, profundo
irrefreável

o destino

que agora te conta
frio, incontestável
sem suprimir um detalhe
sem dar desconto a nada!

03 fevereiro 2007

O Sonho

sonhei que tinha sonhado um sonho
um sonho que sonhava não se ter sonhado
um sonho que, por sonho, já não era dado
um sonho que, sonhado, era irreversível

sonhei que tive um sonho de ter me esquecido
e ter me misturado a tudo o que existia
a ponto de ser só o que eu não tinha sido
a ponto de ser sonho o que eu tinha vivido

sonhei dentro do sonho o sonho vigiando
em cada passo meu a solidão sem guia
de cada passo o tempo se desvencilhando
do olho alheio agora é que então me via

e o sonho do que eu era em mim se transformava
no sonho que me olhava e não me refletia
o sonho que eu sonhara é que me revelava
e justo neste ponto o sonho amanhecia

O Sol

eu imagino o sol, por dentro:
fogo no lugar do pensamento

o corpo sem contornos de um dia
incinerando o firmamento

e as cores
no lugar do tempo

eu imagino o sol, no fundo,
o núcleo de explosões no centro

as vísceras da chama no incêndio
a brasa de cada momento:

o fogo no lugar do tempo!

01 fevereiro 2007

Por si

deixar-se escrever. copiar-se em traduzido
consubstanciar-se

de se falar, ouvir
dar por escrito o que se quer ver
apagar
o terreno intocado de se viver

deixar-se ser
onde escrever nada narra, nada institui
nada é

sê palavra!

por si
: tudo diz

08 novembro 2006

Sombra Iluminada

noite demais para não ter
a alma inteira, sombra iluminada

pesa o silêncio como o infinito
e o sussurro vale mais que um grito

seja o que for, sobra sempre esse encontro
e das coisas passadas resta a teimosia
dessa solidão que me esconde por toda a vida

onde quer que eu vá, vai comigo uma espécie de ausência
em que me reconheço
céu escuro que eu nego e evito
e passa a noite em claro e me espera

04 outubro 2006

Imitação

eu, a imitação de mim mesma,
desesperada de tudo,
concebo que nada conheço

tudo em mim é só começo

eu, a repetição de mim mesma,
todos os dias de todos os futuros

eu
nada conheço

que não seja o desespero

de não conseguir
conceber a mim
sem que eu seja um recomeço

19 setembro 2006

Macabéa

macabéa,
se te pudesse dizer: não atravessa!
não acredita!!

ah, se te pudesse dizer: nunca serás!

macabéa,
se te pudesse sonhar: uma menina
se te pudesse ninar...

- a tua sina
antes de se definir
cruzasse a minha

eu te diria: não vá!
não te atires
no erro de não te ser
não te sentir!

o erro de te olhar
do olho que não te vê,

macabéa!

o querer que não te quer,
macabéa!

Sempre

sempre é solidão o medo
- nunca se comunga o desespero

sempre é solidão o despreparo
a constância do horror, o erro
do não saber quem ser – e quando

sempre é solidão uma paisagem de mar
e a gota
de um vinho a te beber
a noite

sempre é solidão uma morte
e um nascimento

tudo é solitariamente viver
a ilusão
de casamento

28 junho 2006

Construção

pilares, vigas
alicerces

o que constrói em ti o tempo
por dentro?

a sutura, o ponto
a linha

o que costura em ti por dentro
o tempo?

haverá uma casa de solidão e pensamento?
uma trama de idéias, traje de sentimentos?
haverá uma alma feita de todos os teus momentos?
e um amor de cimento, forte
um fundamento?

16 junho 2006

O Olhar

o céu é sempre o mesmo
- as linhas é que são


as linhas do teu olhar
que vêm
e vão

no ritmo do teu pensar
que as linhas
são

teu olhar é que é
teu
coração

teu coração é que é
o teu
olhar

não há imagem que possa
imaginar
o olhar
do teu olho

na visão

03 fevereiro 2006

Um Sol no Fundo do Mar

um sol no fundo do mar

um arco-íris de céu inteiro
pelo menos uma noite no verão
e flores que se casassem
para dar novos buquês

um tigre para abraçar
e pelo menos um rato admissível

e nuvens para deitar
e árvores coloridas

ah, Deus esqueceu tanta coisa!

20 janeiro 2006

Pertencimento

eu não pertenço
nunca consegui pertencer
a nada

eu entro
sem me jogar
dentro
eu saio
sem me projetar
fora

eu penso
um pensar de esquecer
tudo
iludo
a ilusão de estar


junto

18 janeiro 2006

A Espiral

o tempo circula, sem fim, nos infinitos
tange, marca
e circunda cada coisa
abrindo um abismo em tudo o que é sentido

as esferas vão saindo umas de dentro
das outras
e a espiral da vida não alcança o céu
não alcança nada!


descobre, no vazio,
que o mistério está pronto

para ser vivido

17 janeiro 2006

Espelhos dos Meus Olhos

quebrar os espelhos dos meus olhos
ter inteiros os pedaços dos meus sonhos
em lâminas

quebrados de milagres que não eram, nunca foram
mas eu quis

montar os pedaços dos meus sonhos
viver das miragens que tiveram

A Moto

eu sigo agora o pensamento de um homem
estacionando a sua moto
a rota presumível do corpo da moto
no cérebro do homem
que vê no corpo do espaço
a exata conformidade da moto

os olhos medem a vaga
a vaga convida a moto
as mãos convertem a roda
as pernas são alavancas

encaixe mais que preciso
da moto tomando jeito
na vaga do pensamento

meu Deus, que princípio é esse
que deu toda a sapiência
de ser tantos movimentos

e neles, tão natural
sem aulas nem professor
ter todas as matemáticas
bem dentro do esquecimento?

Não Haveria de Ser

não haveria de ser
um só universo
mas vários, retidos, desdobrados
dentro de cada um
e não haveria de ser
um tempo apenas, mas tantos
concentrados por dentro e se sobrepondo
se sublevando, uma hora mais, outra menos
não haveria de ser
o destino a lógica
de cenas concatenadas, de fluxos
marcados de um futuro óbvio
e não haveria de ser o amor
uma trama lírica
de portas se abrindo para dentro
até um porto
mas seriam também várias mortes
por onde só o amor sabe passar
não haveria de ser a vida
uma engrenagem obediente
mas exatamente
a suprema aventura
onde o passo
tanto pode sucumbir ao risco
quanto pode
dominar o espaço

16 janeiro 2006

A Falta de Direção de Tudo Indo

aqui, de onde o tempo escapa
e pesca
a falta de direção de tudo indo
inevitavelmente tudo indo
- o rastro
no passo
se desfazendo
cruzamentos sem sentido

e numa dessas nos encontramos, distraídos

a massa do amor
comeu o pão que o diabo amassou
e é essa mágoa que atravessa as ruas
dobra esquinas e transita
por mil festas tristes
é essa mágoa que atravessa o peito
de um jeito
que vai matando

e numa dessas nos vemos
dois cegos
se conhecendo

A Compreensão

a compreensão
essa domadora de sentidos

evita assassinatos
mas não poupa suicídios

Rainha

parece que aparenta
- sou disfarce, sou máscara
traída de um desejo só
demanchar a pintura
sou Cleópatra subjugada
sou escrava exuberante, gigantesca
castelos de não caber em mim

muito mais rainha a teus pés!

A Espera

te espero

dentro de mim,
esgrima silenciosa
entre a esperança e o medo

a qualquer hora a minha ansiedade pode virar pó

ouço passos se aproximando
as pernas em ponteiros de relógio
falta pouco
falta nada

é só o tempo passando
de novo

se eu desse por decreto que não vens
já cessaria a angústia, romperia o vínculo
mas não posso
não é mais a tua vinda que me prende aqui

é a esperança
que não quer sair

15 janeiro 2006

Tempo

à sombra dos dias roubados
é como o tempo vai passando
retendo tudo sem rastros
matando e ressuscitando

silêncio que nunca envelhece
nem morre nem vela - vigia
o tempo, quando não existia,
só estava atrasado, viria

não foi Deus quem criou o mundo
foi o tempo em seu desejo
que é motor do movimento
que é a gênese de tudo


nenhum no total do espaço
o esboço que a terra gira
sem memória na curvatura
sem pintura na sua arte

porque o tempo não tem começo
e futuro ele não conhece
é a própria eternidade
a toda hora em toda parte

14 janeiro 2006

A Tua Casa

na tua casa
o vidro da janela clareia o sol
o tempo é alvo
e o distanciamento de Deus, um descanso

na tua casa o cansaço
é o pão da tarefa terminada

o espaço de fora é finito
e o de dentro
abre o pulmão

Das Ausências

zunindo a noite passa resumindo
em horas outras eras refazendo
todos os ancestrais do silêncio
noutro que vem pra mim numa insônia
de Deus a latejar no peito
o timbre interminável das ausências

Estranhamento

da vida me acostumando a ser, por vezes, torno
à sensação de completo absurdo

observo
da harmonia insuspeitada de ontem
o que resta agora é o choque, a repulsa
o desencaixe das engrenagens

a roupa que visto não me serve
e não há cor neste mundo que possa supor, hoje,
a minha alma

em cada palavra escuto um enigma
em cada olhar vejo a minha escuridão
em cada passo atropelo
o caminho

você fala comigo e eu me pergunto
quem de nós está enlouquecendo


hoje é o dia do meu estranhamento com tudo!

hoje é o dia em que eu nunca nasci
e nunca vivi

13 janeiro 2006

Viagem

morre a morte, fica o tempo
vastidão sem margem

vida sobre rodas da circunferência
de um relógio

a rota em círculos

rotina da partida que é retorno


a viagem só existe
por dentro

uma odisséia
sem heroísmo

12 janeiro 2006

Outro Sol Noutro Céu

de tudo o que ouvi
só o que era meu me alcançou
de tudo o que vi
somente o que escapou da moldura
de uma cegueira infinitamente maior

porque há de ser que outros mundos
outras esferas, paisagens, detalhes
fontes inimagináveis de vida e libertação
nunca encontraram em mim
um só desejo do olhar

porque não é verdade que tudo o que existe
encontra espelho na minha alma

há um sol noutro céu que não o meu
há mares de águas desconhecidas
caminhos intocados no meu destino
e envelhecimentos que jamais ousei

porque há de ser que não existe saída para o que eu sou
e outro sol
noutro céu
será sempre a manhã que perdi
sem saber

A Contraprova das Palavras

você procura o que eu digo quando calo
você sabe que eu minto poesias
e que isso é um truque

você revira meus poemas e quer
a contraprova das palavras
você sabe que estou nua e me finjo de louca

você esfaqueou palavras
para sugar os sentidos
e não encontrou nada por dentro

você sabe que não posso fugir
que escrever é como dar um xeque-mate em você mesmo, mas,
você sabe,

sempre haverá algo que jamais descobrirás
porque, no poema,
as únicas coisas realmente minhas
são as entrelinhas

Constatação

as horas passam é por dentro
onde não se marca é que se vive
onde não se mede é que é tamanho
o que não cabe é que serve

o tempo dura o quanto eu fico
o quanto eu passo é que me atura
a sede é sempre a mesma água
a sombra morre é de luz

a voz mais funda é no silêncio
a dor mais funda não se diz
o que não tem palavra é que grita
o que não volta mais é que fica

o que é mistério é que me conhece
o que me conhece é que me engana
o que me engana é que me possui
o que me possui é que me perde

11 janeiro 2006

A Visão

estou concentrada no terrível abandono
que é a existência de cada um
e nada agora pode ser reduzido

é a visão do olho
aprisonada ao que vê
desde a cela de onde vê

estou concentrada na tragédia mais íntima
no detalhe, na partícula
na fração de um gesto, uma palavra
um silêncio
que desviou um destino

e nada agora
pode ser presumido

estou concentrada no tremendo vazio
das conquistas imaginárias
dos desejos apodrecidos, da dissolução
de uma vontade

nada agora
pode ser resumido

é a visão do olho
condenada ao que vê
desde a hora em que vê

Desengonçado

desengonçado sentimento
enguiçando tudo

tremedeira, calafrio
coração mais absurdo

do jeito que o medo ama
o amor se assusta!

10 janeiro 2006

Destinos Abandonados

hoje desisto de tantas coisas

mais uma vez deixo que pensem amanhã
meus destinos abandonados

suas sementes
promissoras manhãs de todos os dias
num gesto aqui outro ali
minha construção

- ora, te iludes!
da tua afirmação involuntária até a omissão
forjará, este dia,
um futuro em ti

sutil, como o sol,
a despeito de sua grandeza,
uma força sem surpresas

assim é que te constróis
entre feitorias imperceptíveis
e pequenos esquecimentos

Ficção

tudo é ficção até a carne, até a pele,
até o músculo

tudo é impalpável e sem verdades
até a ruga, até o suor

só o toque vai direto à alma


e a alma nunca mente

Pequenitude

forte é a pedra
que rebate o raio
queima o fogo
e derrete o gelo
sem doer

eu não sou forte
eu não sou pedra

grande é o mar
que nutre a terra
engole tempestades
e embala navios
sem cansar

eu não sou grande
eu não sou mar

Reinado

o reinado desaprendido do teu coração
passa a vida inteira assim
de ilusão em ilusão
sabe que tudo pode ter fim
- ainda não, ainda não
o tempo todo em prontidão
- agora sim, agora sim
o reinado desaprendido do teu coração

O Inferno

o inferno não deve ter nada de facas
fogueiras
o inferno deve ser doce
para atrair a boca
e no beijo queimar
feito soda cáustica

o diabo não deve empunhar
uma suástica
antes deve ser belo
para que não se possa escapar
à sedução
e dentro dela ter o mais sincero desejo
de morrer

Demarcação

não suspeitas que demarco teu olhar
não vigias, não desvendas, não desvias
de onde cerco teu mirante a me conter

não percebes, não pertences ao que és
é quase um corpo este universo que te dou
tem orientes, desesperos, tem o sol
mas não tem jeito, não tem nome, não tem par

o nosso encontro é uma terra sem lugar
não tem futuro nem medida nem razão
o teu olhar é que me inventa e me mantém
ele demarca a solidão que me possui

11 dezembro 2005

Calendário

abre no calendário
o dia de sol mais bonito
o dia de sol esquecido
o sol em que o fogo, incontido,

me dá o calor que preciso

07 outubro 2005

Vida e Morte

vida e morte são parte
de uma coisa só
o nome é que não existe


uma guarda a ciência da outra

estão refletidas no espelho
num reconhecimento de gêmeas
todo o tempo de existir

mistérios há, do mesmo tanto,
nas duas

e no ponto em que uma culmina
a outra continua

mas evitamos
no olho gêmeo a sombra na retina
no olhar do outro, refletida,
a mesma sina

até que um dia
a vida vem e revela
que nela

só morte havia à espera

Ensaio de um Reconhecimento

como se tantos espelhos gigantes
dispostos uns contra os outros
trincassem
em mais e mais ângulos, cortes
o teu corpo ao centro do quarto

são quatro paredes de vidro
retendo de ti várias faces

e todos os olhos vidrados
em tudo de ti que é disfarce

nenhum dos espelhos percebe
no olhar a imagem se esquece

aquele que escapa ao reflexo
é o único que te reconhece

06 outubro 2005

Noite Alta

deste, que é o silêncio
ouvindo meus pensamentos
quando fora tudo é suspenso
mas por dentro nada cala

na hora em que tudo pára
no sono que a todos dorme
a voz, em sussurro, é alta
e a falta me tem repleta

neste, que é isolamento,
a solidão luta
e não escapa
nem da insônia das palavras
nem da ausência que a escuta

05 outubro 2005

No Escuro

teus olhos atiravam no escuro
e abriam feridas
em todos os poros do meu corpo


nem todos os crimes eu cometi
mas todas as mortes eu conheço

04 outubro 2005

O Espantalho da Vida

prescrutam-me sombras

sombras de rapina

quando menos espero, o bote!

e já estou dentro dos meus escuros


sou eu
entrevada que nem o diabo
imagina

nascida dos infernos
matéria do terror de existir
massa do desespero de ser

ali,
tão cega quanto um raio-x

meu esqueleto vital
o espantalho da vida
toda inteira
carcomida
dentro de mim

19 julho 2005

Ao Tempo

deixa ao tempo
é quase inútil teu lamento
é bem possível que as palavras
saibam menos que o silêncio

deixa
e contempla

as naturezas, sem esforço,
se movem, incham e encolhem

são o tempo

é bem provável que amanhã
já tão distantes tuas dores
não mais te alcancem como antes
senhoras já de alguma morte
que em ti viaja para sempre

12 junho 2005

Efêmero

o movimento
só é lançado
para o esquecimento

não há um só passo que não seja dado
para ser passado

nenhuma ação
apreende o tempo

efêmera é a alma da eternidade

instantânea a sombra de seu corpo

11 junho 2005

Um Caminhar

o tronco ereto sem esforço
passos leves, braços soltos

é uma música que caminha
a sinfonia de um corpo

o tom que o gesto empresta ao pensamento
refrão que a mente dita à estrutura
nenhuma nota escapa à harmonia
nenhum acorde agride a partitura

é toda a engrenagem afinada
o tempo natural do movimento
a sintonia de um corpo
a arte de não ter constrangimento