perco tempo
e sei que perco
e vivo assim
perdendo tempo
de mim
e sei que o tempo
do que perco
vive em mim
perdendo tempo
o coração mais quente
sente mais frio
é mais forte a violência
para os delicados
esses, hão de redobrar sua delicadeza
e seus corações
cada vez mais quentes e mais quentes e mais quentes
hão de derreter a geleira
pedras e pedras enormes de gelo
derrentendo
e por aquele vão que abriram
por aquele caminho
por ali
altos e delicados
eles poderão passar
encontro
numa sombra nenhuma de teu corpo
o quanto és vivo, agora morto
ironia, perder é descobrir o quanto havia
mas não me culpes
não são minhas essas leis
nem tuas
estamos presos a uma lógica
absurda de nós mesmos
agora o tempo, ao te saber,
é todo volta
resgate, retorno
triunfo
do irrecuperável
- da pausa interminável levo apenas
um pentagrama exilado de futuro
onde a próxima nota é sempre
a negação da música
tua morte é tua única cartada de eternidade
de agora em diante
viverás de negar tua existência
dia a dia, ano a ano
memória onde vens morar segue teu rastro e é o tempo
do tempo de te desfazer
até que não existas mais
até que um dia nem tenhas nascido
o ponto central do meu discurso é uma casa pegando fogo
e pegando fogo o incêndio
um pássaro de asa quebrada arrastando o corpo e, em queda livre,
voando
o ponto central do meu discurso é um silêncio profundo
acorde arrebentado da música se escutando
o ponto central é a cegueira se observando
o tempo ruindo
comigo passando
e tudo ficando em mim
se amontoando...
ouço a música de madeira do luthier
sua escultura sonora
feita de vãos e cordas
músico sem partituras no pensamento
o luthier
seus acordes de curvas
as harmonias físicas
penso na música de arquiteturas do luthier
a construção de um templo
dentro do instrumento
casa do silêncio
seu métier
inverno
ilusão a tua
frio eu sinto é por dentro
não supões que o vento, apressado,
bate contra meu esquecimento?
não vês que é do centro
que a estação desenha o dia?
aqui, onde não alcanças,
está o calor que não aprendes
e o gelo
que nem imaginas
que de ti possam dizer: foi bravo!
resignado em seu dever
de viver
e possam acrescentar: foi breve
a vida que te mereceu
possam lamentar
a impaciência do tempo
para curtir teu corpo
até perder a cor
até a alma
ficar transparente
ser o que não se vê
ser o que não existe
ser aquele que foi
simplesmente
um a mais
um a menos
resignado
em seu dever
de viver
não torna a água
já entornada
arrepende-se do rio que dela se enche
arrepende-se do oceano
o afluente
vira a sede do deserto
aberto no mar
olhos teus em teus olhares passo
uma afortunada rebeldia dos lugares nas cores
e o tanto meu que resta
o tanto meu que é vício de ti reflete o dia
de dentro de teu olho que meu olho espia
repara de manhã como são leves
os teus infernos
e é lento no teu corpo o movimento, a pulsação
repara como muda o mundo dentro do teu tempo
e as mesmas juventudes ficam velhas
e suaves
repara que é a vida que te vive à tua revelia
e dia após o dia te descobre diferente
e sente como é breve a natureza que te apura
afina teus ouvidos, tira o pó dos teus olhares
e tu que nem reparas neste sol que te amanhece
não usas nem metade dos milagres que conheces
convences a Deus
mas não te podes perdoar
tua glória é alheia
tua recompensa, inútil
onde fostes te deixar
enquanto o caminho seguia
sem hesitar um futuro
sem dar ouvidos a nada?
onde foi que para ti
Deus se deu por satisfeito
e começou o teu calvário
bem íntimo, profundo
irrefreável
o destino
que agora te conta
frio, incontestável
sem suprimir um detalhe
sem dar desconto a nada!
sonhei que tinha sonhado um sonho
um sonho que sonhava não se ter sonhado
um sonho que, por sonho, já não era dado
um sonho que, sonhado, era irreversível
sonhei que tive um sonho de ter me esquecido
e ter me misturado a tudo o que existia
a ponto de ser só o que eu não tinha sido
a ponto de ser sonho o que eu tinha vivido
sonhei dentro do sonho o sonho vigiando
em cada passo meu a solidão sem guia
de cada passo o tempo se desvencilhando
do olho alheio agora é que então me via
e o sonho do que eu era em mim se transformava
no sonho que me olhava e não me refletia
o sonho que eu sonhara é que me revelava
e justo neste ponto o sonho amanhecia
eu imagino o sol, por dentro:
fogo no lugar do pensamento
o corpo sem contornos de um dia
incinerando o firmamento
e as cores
no lugar do tempo
eu imagino o sol, no fundo,
o núcleo de explosões no centro
as vísceras da chama no incêndio
a brasa de cada momento:
o fogo no lugar do tempo!
deixar-se escrever. copiar-se em traduzido
consubstanciar-se
de se falar, ouvir
dar por escrito o que se quer ver
apagar
o terreno intocado de se viver
deixar-se ser
onde escrever nada narra, nada institui
nada é
sê palavra!
por si
: tudo diz
noite demais para não ter
a alma inteira, sombra iluminada
pesa o silêncio como o infinito
e o sussurro vale mais que um grito
seja o que for, sobra sempre esse encontro
e das coisas passadas resta a teimosia
dessa solidão que me esconde por toda a vida
onde quer que eu vá, vai comigo uma espécie de ausência
em que me reconheço
céu escuro que eu nego e evito
e passa a noite em claro e me espera
eu, a imitação de mim mesma,
desesperada de tudo,
concebo que nada conheço
tudo em mim é só começo
eu, a repetição de mim mesma,
todos os dias de todos os futuros
eu
nada conheço
que não seja o desespero
de não conseguir
conceber a mim
sem que eu seja um recomeço
macabéa,
se te pudesse dizer: não atravessa!
não acredita!!
ah, se te pudesse dizer: nunca serás!
macabéa,
se te pudesse sonhar: uma menina
se te pudesse ninar...
- a tua sina
antes de se definir
cruzasse a minha
eu te diria: não vá!
não te atires
no erro de não te ser
não te sentir!
o erro de te olhar
do olho que não te vê,
macabéa!
o querer que não te quer,
macabéa!
sempre é solidão o medo
- nunca se comunga o desespero
sempre é solidão o despreparo
a constância do horror, o erro
do não saber quem ser – e quando
sempre é solidão uma paisagem de mar
e a gota
de um vinho a te beber
a noite
sempre é solidão uma morte
e um nascimento
tudo é solitariamente viver
a ilusão
de casamento
pilares, vigas
alicerces
o que constrói em ti o tempo
por dentro?
a sutura, o ponto
a linha
o que costura em ti por dentro
o tempo?
haverá uma casa de solidão e pensamento?
uma trama de idéias, traje de sentimentos?
haverá uma alma feita de todos os teus momentos?
e um amor de cimento, forte
um fundamento?
o céu é sempre o mesmo
- as linhas é que são
as linhas do teu olhar
que vêm
e vão
no ritmo do teu pensar
que as linhas
são
teu olhar é que é
teu
coração
teu coração é que é
o teu
olhar
não há imagem que possa
imaginar
o olhar
do teu olho
na visão
um sol no fundo do mar
um arco-íris de céu inteiro
pelo menos uma noite no verão
e flores que se casassem
para dar novos buquês
um tigre para abraçar
e pelo menos um rato admissível
e nuvens para deitar
e árvores coloridas
ah, Deus esqueceu tanta coisa!
navego sem sentido
sem propósito
o tempo espreme o tempo e é conciso
em tudo nada sobra
mas eu fico
eu fico sem procura, sem princípio
no entanto, eu sigo
o mar desta viagem é silêncio
eu não pertenço
nunca consegui pertencer
a nada
eu entro
sem me jogar
dentro
eu saio
sem me projetar
fora
eu penso
um pensar de esquecer
tudo
iludo
a ilusão de estar
junto
o tempo circula, sem fim, nos infinitos
tange, marca
e circunda cada coisa
abrindo um abismo em tudo o que é sentido
as esferas vão saindo umas de dentro
das outras
e a espiral da vida não alcança o céu
não alcança nada!
descobre, no vazio,
que o mistério está pronto
para ser vivido
quebrar os espelhos dos meus olhos
ter inteiros os pedaços dos meus sonhos
em lâminas
quebrados de milagres que não eram, nunca foram
mas eu quis
montar os pedaços dos meus sonhos
viver das miragens que tiveram
eu sigo agora o pensamento de um homem
estacionando a sua moto
a rota presumível do corpo da moto
no cérebro do homem
que vê no corpo do espaço
a exata conformidade da moto
os olhos medem a vaga
a vaga convida a moto
as mãos convertem a roda
as pernas são alavancas
encaixe mais que preciso
da moto tomando jeito
na vaga do pensamento
meu Deus, que princípio é esse
que deu toda a sapiência
de ser tantos movimentos
e neles, tão natural
sem aulas nem professor
ter todas as matemáticas
bem dentro do esquecimento?
não haveria de ser
um só universo
mas vários, retidos, desdobrados
dentro de cada um
e não haveria de ser
um tempo apenas, mas tantos
concentrados por dentro e se sobrepondo
se sublevando, uma hora mais, outra menos
não haveria de ser
o destino a lógica
de cenas concatenadas, de fluxos
marcados de um futuro óbvio
e não haveria de ser o amor
uma trama lírica
de portas se abrindo para dentro
até um porto
mas seriam também várias mortes
por onde só o amor sabe passar
não haveria de ser a vida
uma engrenagem obediente
mas exatamente
a suprema aventura
onde o passo
tanto pode sucumbir ao risco
quanto pode
dominar o espaço
aqui, de onde o tempo escapa
e pesca
a falta de direção de tudo indo
inevitavelmente tudo indo
- o rastro
no passo
se desfazendo
cruzamentos sem sentido
e numa dessas nos encontramos, distraídos
a massa do amor
comeu o pão que o diabo amassou
e é essa mágoa que atravessa as ruas
dobra esquinas e transita
por mil festas tristes
é essa mágoa que atravessa o peito
de um jeito
que vai matando
e numa dessas nos vemos
dois cegos
se conhecendo
a compreensão
essa domadora de sentidos
evita assassinatos
mas não poupa suicídios
parece que aparenta
- sou disfarce, sou máscara
traída de um desejo só
demanchar a pintura
sou Cleópatra subjugada
sou escrava exuberante, gigantesca
castelos de não caber em mim
muito mais rainha a teus pés!
te espero
dentro de mim,
esgrima silenciosa
entre a esperança e o medo
a qualquer hora a minha ansiedade pode virar pó
ouço passos se aproximando
as pernas em ponteiros de relógio
falta pouco
falta nada
é só o tempo passando
de novo
se eu desse por decreto que não vens
já cessaria a angústia, romperia o vínculo
mas não posso
não é mais a tua vinda que me prende aqui
é a esperança
que não quer sair
à sombra dos dias roubados
é como o tempo vai passando
retendo tudo sem rastros
matando e ressuscitando
silêncio que nunca envelhece
nem morre nem vela - vigia
o tempo, quando não existia,
só estava atrasado, viria
não foi Deus quem criou o mundo
foi o tempo em seu desejo
que é motor do movimento
que é a gênese de tudo
nenhum no total do espaço
o esboço que a terra gira
sem memória na curvatura
sem pintura na sua arte
porque o tempo não tem começo
e futuro ele não conhece
é a própria eternidade
a toda hora em toda parte
na tua casa
o vidro da janela clareia o sol
o tempo é alvo
e o distanciamento de Deus, um descanso
na tua casa o cansaço
é o pão da tarefa terminada
o espaço de fora é finito
e o de dentro
abre o pulmão
zunindo a noite passa resumindo
em horas outras eras refazendo
todos os ancestrais do silêncio
noutro que vem pra mim numa insônia
de Deus a latejar no peito
o timbre interminável das ausências
da vida me acostumando a ser, por vezes, torno
à sensação de completo absurdo
observo
da harmonia insuspeitada de ontem
o que resta agora é o choque, a repulsa
o desencaixe das engrenagens
a roupa que visto não me serve
e não há cor neste mundo que possa supor, hoje,
a minha alma
em cada palavra escuto um enigma
em cada olhar vejo a minha escuridão
em cada passo atropelo
o caminho
você fala comigo e eu me pergunto
quem de nós está enlouquecendo
hoje é o dia do meu estranhamento com tudo!
hoje é o dia em que eu nunca nasci
e nunca vivi
morre a morte, fica o tempo
vastidão sem margem
vida sobre rodas da circunferência
de um relógio
a rota em círculos
rotina da partida que é retorno
a viagem só existe
por dentro
uma odisséia
sem heroísmo
de tudo o que ouvi
só o que era meu me alcançou
de tudo o que vi
somente o que escapou da moldura
de uma cegueira infinitamente maior
porque há de ser que outros mundos
outras esferas, paisagens, detalhes
fontes inimagináveis de vida e libertação
nunca encontraram em mim
um só desejo do olhar
porque não é verdade que tudo o que existe
encontra espelho na minha alma
há um sol noutro céu que não o meu
há mares de águas desconhecidas
caminhos intocados no meu destino
e envelhecimentos que jamais ousei
porque há de ser que não existe saída para o que eu sou
e outro sol
noutro céu
será sempre a manhã que perdi
sem saber
você procura o que eu digo quando calo
você sabe que eu minto poesias
e que isso é um truque
você revira meus poemas e quer
a contraprova das palavras
você sabe que estou nua e me finjo de louca
você esfaqueou palavras
para sugar os sentidos
e não encontrou nada por dentro
você sabe que não posso fugir
que escrever é como dar um xeque-mate em você mesmo, mas,
você sabe,
sempre haverá algo que jamais descobrirás
porque, no poema,
as únicas coisas realmente minhas
são as entrelinhas
as horas passam é por dentro
onde não se marca é que se vive
onde não se mede é que é tamanho
o que não cabe é que serve
o tempo dura o quanto eu fico
o quanto eu passo é que me atura
a sede é sempre a mesma água
a sombra morre é de luz
a voz mais funda é no silêncio
a dor mais funda não se diz
o que não tem palavra é que grita
o que não volta mais é que fica
o que é mistério é que me conhece
o que me conhece é que me engana
o que me engana é que me possui
o que me possui é que me perde
estou concentrada no terrível abandono
que é a existência de cada um
e nada agora pode ser reduzido
é a visão do olho
aprisonada ao que vê
desde a cela de onde vê
estou concentrada na tragédia mais íntima
no detalhe, na partícula
na fração de um gesto, uma palavra
um silêncio
que desviou um destino
e nada agora
pode ser presumido
estou concentrada no tremendo vazio
das conquistas imaginárias
dos desejos apodrecidos, da dissolução
de uma vontade
nada agora
pode ser resumido
é a visão do olho
condenada ao que vê
desde a hora em que vê
desengonçado sentimento
enguiçando tudo
tremedeira, calafrio
coração mais absurdo
do jeito que o medo ama
o amor se assusta!
hoje desisto de tantas coisas
mais uma vez deixo que pensem amanhã
meus destinos abandonados
suas sementes
promissoras manhãs de todos os dias
num gesto aqui outro ali
minha construção
- ora, te iludes!
da tua afirmação involuntária até a omissão
forjará, este dia,
um futuro em ti
sutil, como o sol,
a despeito de sua grandeza,
uma força sem surpresas
assim é que te constróis
entre feitorias imperceptíveis
e pequenos esquecimentos
tudo é ficção até a carne, até a pele,
até o músculo
tudo é impalpável e sem verdades
até a ruga, até o suor
só o toque vai direto à almae a alma nunca mente
forte é a pedra
que rebate o raio
queima o fogo
e derrete o gelo
sem doer
eu não sou forte
eu não sou pedra
grande é o mar
que nutre a terra
engole tempestades
e embala navios
sem cansar
eu não sou grande
eu não sou mar
o reinado desaprendido do teu coraçãopassa a vida inteira assimde ilusão em ilusãosabe que tudo pode ter fim - ainda não, ainda nãoo tempo todo em prontidão - agora sim, agora simo reinado desaprendido do teu coração
o inferno não deve ter nada de facas
fogueiras
o inferno deve ser doce
para atrair a boca
e no beijo queimar
feito soda cáustica
o diabo não deve empunhar
uma suástica
antes deve ser belo
para que não se possa escapar
à sedução
e dentro dela ter o mais sincero desejo
de morrer
não suspeitas que demarco teu olharnão vigias, não desvendas, não desviasde onde cerco teu mirante a me conternão percebes, não pertences ao que ésé quase um corpo este universo que te doutem orientes, desesperos, tem o solmas não tem jeito, não tem nome, não tem paro nosso encontro é uma terra sem lugarnão tem futuro nem medida nem razãoo teu olhar é que me inventa e me mantémele demarca a solidão que me possui
abre no calendário
o dia de sol mais bonito
o dia de sol esquecido
o sol em que o fogo, incontido,me dá o calor que preciso
vida e morte são parte
de uma coisa só
o nome é que não existe
uma guarda a ciência da outra
estão refletidas no espelho
num reconhecimento de gêmeas
todo o tempo de existir
mistérios há, do mesmo tanto,
nas duas
e no ponto em que uma culmina
a outra continua
mas evitamos
no olho gêmeo a sombra na retina
no olhar do outro, refletida,
a mesma sina
até que um dia
a vida vem e revela
que nela
só morte havia à espera
como se tantos espelhos gigantes
dispostos uns contra os outros
trincassem
em mais e mais ângulos, cortes
o teu corpo ao centro do quarto
são quatro paredes de vidro
retendo de ti várias faces
e todos os olhos vidrados
em tudo de ti que é disfarce
nenhum dos espelhos percebe
no olhar a imagem se esquece
aquele que escapa ao reflexo
é o único que te reconhece
deste, que é o silêncio
ouvindo meus pensamentos
quando fora tudo é suspenso
mas por dentro nada cala
na hora em que tudo pára
no sono que a todos dorme
a voz, em sussurro, é alta
e a falta me tem repleta
neste, que é isolamento,
a solidão luta
e não escapa
nem da insônia das palavras
nem da ausência que a escuta
teus olhos atiravam no escuro
e abriam feridas
em todos os poros do meu corpo
nem todos os crimes eu cometi
mas todas as mortes eu conheço
prescrutam-me sombras
sombras de rapina
quando menos espero, o bote!
e já estou dentro dos meus escuros
sou eu
entrevada que nem o diabo
imagina
nascida dos infernos
matéria do terror de existir
massa do desespero de ser
ali,
tão cega quanto um raio-x
meu esqueleto vital
o espantalho da vida
toda inteira
carcomida
dentro de mim
deixa ao tempo
é quase inútil teu lamento
é bem possível que as palavras
saibam menos que o silêncio
deixa
e contempla
as naturezas, sem esforço,
se movem, incham e encolhem
são o tempo
é bem provável que amanhã
já tão distantes tuas dores
não mais te alcancem como antes
senhoras já de alguma morte
que em ti viaja para sempre
o movimento
só é lançado
para o esquecimento
não há um só passo que não seja dado
para ser passado
nenhuma ação
apreende o tempo
efêmera é a alma da eternidadeinstantânea a sombra de seu corpo
o tronco ereto sem esforço
passos leves, braços soltos
é uma música que caminha
a sinfonia de um corpo
o tom que o gesto empresta ao pensamento
refrão que a mente dita à estrutura
nenhuma nota escapa à harmonia
nenhum acorde agride a partitura
é toda a engrenagem afinada
o tempo natural do movimento
a sintonia de um corpo
a arte de não ter constrangimento
muitos
caminhar não caminham
perseguem
um ponto da vida adiante
muitos
caminhar não caminham
fogem
de um ponto da vida de antes
muitos
caminhar não caminham
ficam num ponto da vida
distantes
o dia caiu esfacelado à minha frente
feito um quebra-cabeças
de ruas, cidades, gentes
no tempo trincado os destinos
foram todos misturados
de peças diferentes
não encaixa mais o mundo
não completa mais o jogo
mas a vida segue em frente
sempre a mesma,
indiferente
no curso da veia, sangria
das horas passando, o pulso
do tempo do corpo, batendo
viver é só isso
uma vida do corpo vivendo e tudo, por dentro,
marcando percurso
não pode ser cientista
aquele que não tem fé
acreditar que uma estrela
pode ser mais do que é
também não se dá a ciência
a quem falta imaginação
para entrar no mistério das coisas
é preciso ter
solidão